quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Belle Époque dos artistas

Por TATIANE LIMA em 10/04/2009 
 Os artistas da Belle Époque não tinham um estilo único. Alguns pintavam sobre a morte, a fome, a miséria e a dor. Outros, sobre a vida, o belo, a forma. Podemos dizer que a própria arte revela uma época cheia de contradições e diferenças no âmbito econômico, político e social. Diferenças que provoca em cada autor uma necessidade de expressão diferente. Cada artista dá enfoque àquilo que para si apresentava-se como um referencial duma época ou mesmo de uma sociedade.
            Muitos desses artistas pertenciam à alta classe burguesa, porém contestavam a própria classe social através de suas obras. Isso explica o porquê de muitas obras só serem publicadas após a morte de seus autores. Os impressionistas, por exemplo, não eram bem vistos pelos apreciadores de arte. O desprezo dado a eles está relacionado à ausência da forma em seus quadros. Uma sociedade burguesa precisava da forma como símbolo de ordem e civilização. O belo está ligado à forma. O feio e disforme ao primitivo e demoníaco.
Por este motivo a art noveau foi largamente difundida na sociedade. A valorização da forma neste tipo de arte leva a elite burguesa a considerá-la uma obra dentro dos padrões civilizatórios. Edward Munch era um expressionista que retratava a dor, a morte, a solidão, a melancolia e o terror das forças da natureza em seus quadros. Ele optou por esta vertente partindo de suas experiências traumáticas. Munch assistiu a morte da mãe e da irmã quando pequeno, mais tarde, outra irmã foi internada sob o diagnóstico de distúrbios bipolares. Seus quadros revelam que uma “bela época” também era marcada por momentos terríveis de dor e sofrimento. 
Munch tornou-se conhecido após sua obra máxima, O grito, que feita trinta anos após iniciado sua carreira como pintor. Artistas considerados fora dos padrões só tiveram espaço ao final da Belle Époque. Quando há um crescente aumento populacional e forte avanço da classe média urbanizada que a elite burguesa convida a fazer parte da cultura erudita. Há uma transformação dessa cultura erudita em cultura de massa devido a sua larga expansão e até mesmo pela reprodução das obras.
Em O grito, Munch mistura medo e horror num mesmo quadro em que ele afirma no seu diário ser o grito da natureza a ensurdecer seus ouvidos. Os expressionistas contestavam a cultura tradicional. A obra dele mostra o apelo da natureza aos homens de forma demonizada. Um tom de terror ou mesmo pavor é muito presente no quadro.
A artista alemã Kathë Kollwitz, traz a classe operária, fome, guerra e pobreza em seus quadros. Kathë é considerada uma artista proto-expressinista. Assumia um compromisso com a “humanidade sofredora”, como diz Eric Robsbawn em A era dos impérios. Há pouquíssimas referências a ela nos livros de história da arte moderna. As páginas dedicadas à artista costumam englobá-la no mesmo pacote que os artistas expressionistas. Mas, Kathë ainda na Belle Époque começa a utilizar o estilo naturalista em seus quadros ao invés de um realismo de outros autores.  Como muitos artistas sua arte traz reflexos de seus traumas: ela perdeu o filho e o neto para a guerra. 

Edward Munch, O grito, 1903.
          Kathë é uma artista que iniciou sua carreira ao final da Belle Époque. Embora não há como precisar se a Belle époque realmente acaba nos preciso ano de 1914, antes da Primeira Guerra Mundial, é possível desconfiar que a Pax Britânica fosse uma farsa. Pois, ao término dela quase que de imediato é travada uma guerra que as dores estão expostas nas obras da artista.  Antes mesmo que acabasse este acordo de paz, Kathe já relatava as perdas humanas em seus quadros.
Kathe Kollwitz, Woman with her Dead Child, 1903.
          O quadro revela uma época onde as pessoas são infelizes. Talvez por este motivo que a artista não tivesse tido o espaço que teve outros artistas. O traço naturalista de Kathë a impedia de receber o mesmo mérito que seus contemporâneos. Embora suas obras tenham sido muito apreciadas. Os naturalistas eram acusados de se concentrarem na “parte suja, inferior da sociedade”. A elite burguesa preferiu acreditar na não-existência dos pobres e oprimidos a ter que se lidar com suas angústias e frustrações.
         Alguns artistas, mesmo contra a sociedade se mantiveram dentro dos padrões. Artistas como Van Gogh foram reconhecidos não só pela arte, mas pela forma mantida dentro dos padrões burgueses. Enquanto os outros artistas retratavam as lamentações da classe marginalizada, Van Gogh mostrava o que havia de belo no continente europeu: uma rua famosa, um auto-retrato repleto de cores vivas. 

Vincent van Gogh, Cafe Terrace at Night, 1888.
         Apesar de seu estilo impressionista, Van Gogh ainda estava preso as raízes burguesas que mostra apenas a parte limpa da cidade esquecendo-se da maioria marginalizada.  Seguindo a mesma linha impressionista e estilizada, encontramos Paul Gauguin e Paul Cézzane. Embora Paul Gauguin tenha transformado a sua arte num estilo de vida e numa filosofia, a Les Nabis. Ainda assim, criando seu próprio estilo, ele estava preso a padrões. Antes mesmo de se tornar um artista Gauguin foi corretor de uma bolsa de valores parisiense, não deixando de ser um burguês. Sua obra nada tem a ver com o naturalismo.
           As cores, embora ligadas ao impressionismo são o embelezamento das formas. Ainda que tanto Gauguin fizesse uso do cubismo num determinado momento histórico artístico. O pobre, nas obras de Gauguin, não expressa a dor ou mesmo a fome e miséria de forma explícita. Talvez numa leitura mais analítica isso seja exposto, mas não num primeiro olhar para o quadro. 

Paul Gauguin, O Cristo Amarelo, 1889.
              Já Paul Cézanne era herdeiro de uma fortuna. Seu pai foi o co-fundador de uma firma bancária. Seus quadros quando não tratavam da natureza mostravam momentos privados da sociedade burguesa. Cézanne queria imortalizar o cubismo. Não pretendia discutir sobre os problemas de sua época apenas transpô-los para o papel sem julgamento. Porém, há espaços vazios em suas obras assim como nas obras de Van Gogh e Paul Gauguin. Esses vazios podem representar a ausência do outro lado da cidade, o considerado lado sujo e não apropriado às obras. 

  Paul Cezzane, Baigneuses, 1874-1875.
 Outro artista também parte elite, pertencente da nobreza francesa desta mesma época, mas sem mostrar apenas a parte favorecida da sociedade é Henri Toulouse-Lautrec. Assim como Edward Munch e Kathe kollwitz, Toulouse preocupa com a classe trabalhadora. Uma de suas obras mais famosas, O Moulin Rouge, demonstra através de suas formas e das cores a beleza e a clareza dos marginalizados.
Toulouse-Lautrec conviveu com trabalhadores e prostitutas após se mudar para o bairro de má fama, Montmartre, em Paris. O artista se identificou com os indivíduos considerados sujos e transpôs sua simpatia para seus quadros. 
Cartaz de Henri Toulouse para o Moulin Rouge, em 1891.




   Podemos dizer que não havia uma identidade artística na Belle Époque. Num período de cem anos, houve artistas impressionistas, expressionistas, art-nouveau, naturalistas, cubistas, realistas etc. Todos buscavam reconhecimento. Alguns, de seus trabalhos, outros, de seu esforço em fazer ascender a classe operária. Analisar a Belle Époque através da arte é perceber, senão suspeitar, da existência de uma sociedade hipócrita. Uma sociedade que esconde as diferenças alegando que um povo civilizado é estilisticamente belo sendo, esse belo relacionado à pureza de raça e a condição social de cada indivíduo. A boa condição social da elite é vista como modelo para aqueles que não a têm de sintam obrigados a se igualar. Ou seja: não pode haver diferenças, apenas um método de superação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário